Auditoria interna governamental precisa ser estratégica, preventiva e orientada ao cidadão, aponta especialista em evento promovido pelo MPC-PR

  • Post publicado:

Reunião técnica com Marcus Vinicius de Azevedo Braga, da CGU, reuniu controladores e servidores dos Municípios paranaenses para discutir o papel da auditoria interna diante das transformações da administração pública. 

Mais do que localizar erros, a auditoria interna governamental deve gerar informação independente e qualificada para aperfeiçoar a gestão, proteger os recursos públicos e garantir que as políticas cheguem ao cidadão. Essa foi a principal mensagem da reunião técnica “Os desafios da Auditoria Interna Governamental no Brasil do Século XXI”, promovida pelo Ministério Público de Contas do Paraná (MPC-PR) na tarde de 23 de outubro, de forma online, pelo Microsoft Teams. 

O encontro integrou a trilha de capacitações do projeto Diagnóstico de Maturidade das Estruturas de Controle Interno e teve como palestrante o Auditor Federal de Finanças e Controle da Controladoria-Geral da União (CGU), Marcus Vinicius de Azevedo Braga. A transmissão registrou em média cerca de 180 participantes, com picos de mais de 210 pessoas conectadas, entre controladores internos, gestores, procuradores, auditores e servidores de Municípios de diferentes regiões do Paraná, além de participantes de outros estados. 

Abertura destaca papel preventivo e propositivo da auditoria 

Na abertura, o Procurador-Geral do MPC-PR, Gabriel Guy Léger, ressaltou que as atividades de controle vêm assumindo posições cada vez mais estratégicas no cotidiano das instituições públicas. “A auditoria interna não deve ser compreendida apenas como instrumento de fiscalização ou de verificação de conformidade, mas também pelo seu papel preventivo, orientador e propositivo, ao apoiar a governança, a gestão de riscos e a tomada de decisões”, afirmou. Para o Procurador-Geral, o tema é especialmente relevante para os Municípios, já que o fortalecimento dos controles internos contribui para aperfeiçoar processos, proteger os recursos públicos, ampliar a transparência e oferecer respostas mais efetivas às necessidades da população. 

Gabriel Guy Léger também reconheceu a participação dos servidores municipais, que, segundo ele, demonstra “o compromisso dos Municípios com o fortalecimento das suas estruturas de controle e com a melhoria dos serviços prestados à sociedade”, e agradeceu à Diretora-Geral do MPC-PR, Barbara Krysttal Motta Almeida Reis, pela construção do programa de trilhas de formação. 

Ao apresentar o palestrante, Barbara Krysttal destacou a trajetória de Marcus Vinicius como autor de diversas obras sobre setor público, controladoria, auditoria governamental e gestão de riscos — entre elas o livro Controladoria no Setor Público, escrito em coautoria com a própria Diretora. Ela provocou os participantes a revisitarem suas práticas: “Talvez vocês pensem que fazem auditoria e vão descobrir hoje que talvez façam fiscalizações, e não, de fato, auditorias. Isso é muito importante para que vocês revejam as documentações, o plano de trabalho, as instruções, o objetivo e o objeto”. 

A Diretora também chamou atenção para a realidade paranaense, em que mais da metade dos Municípios conta com apenas um servidor na unidade de controle interno, responsável por dezenas de atribuições, e lembrou que o projeto passou a abranger também os Poderes Legislativos municipais. “Tenho certeza de que os Municípios vão ter um avanço enorme, não só de maturidade, mas de estruturação do controle no Paraná inteiro”, afirmou. 

Do “caça-erros” à geração de valor para a gestão 

Em uma palestra de caráter prospectivo, Marcus Vinicius propôs uma reflexão sobre o lugar da auditoria interna diante das mudanças vividas pelo controle governamental nos últimos 30 anos. Usando a metáfora de um “elevador cheio”, explicou que a agenda do controle cresceu e incorporou novos atores e temas — como ouvidoria, corregedoria, integridade e transparência —, o que trouxe ganhos, mas também confusões sobre a identidade da auditoria. “Em alguns lugares, nós somos vistos como um xerife; em outros, como um amigo que bate no ombro do gestor para auxiliá-lo. A gente precisa fazer essa reflexão: o que nós somos e o que esperam de nós”, provocou. 

O palestrante definiu o auditor como o profissional que, com relativa independência e por meio de atuação sistemática e programada, emite opinião sobre processos relevantes da gestão para que essa opinião retorne em melhorias. Segundo ele, o controle interno é, antes de tudo, um mecanismo do próprio gestor para que a estrutura administrativa funcione. “Ninguém aguenta viver no mundo da guerra de todos contra todos. A auditoria existe para trazer confiança e equilíbrio às relações”, afirmou. 

Entre os desafios apresentados, o especialista destacou a necessidade de profissionalização e de qualidade técnica dos trabalhos, com metodologia, manuais, revisão e supervisão dos relatórios. “Técnico não é o contrário de político. O trabalho é técnico porque se pauta em metodologia, em evidências e num rito de previsibilidade”, explicou. Também defendeu que a auditoria seja direcionada pelo risco e pela relevância, alinhada à lógica das políticas públicas e com o cidadão no centro da análise, evitando o foco em “filigranas” e no que chamou de modelo “errocêntrico”. 

Para ilustrar, citou o exemplo de uma diária paga em duplicidade: mais importante do que punir o caso isolado é entender qual falha na estrutura de controle permitiu o erro. “Jogar o problema debaixo da porta e sair correndo é fácil; abraçar a discussão da solução é mais complicado”, disse. Ele também apresentou o conceito de “poder indutor da auditoria”, capaz de destravar agendas paradas na gestão, como a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), por exemplo. 

Marcus Vinicius abordou ainda a qualidade do gasto público, a atuação em rede com órgãos de controle, gestores, cidadãos e demais instâncias internas, bem como as salvaguardas anticorrupção, a governança de dados, a comunicação dos resultados das auditorias. Sobre a inteligência artificial, alertou que a tecnologia resolverá muitos problemas, mas exige supervisão e cautela, já que o cruzamento indiscriminado de bases de dados pode gerar grande volume de falsos positivos. “Não é a base de dados que direciona o que a gente vai fazer; é a lógica”, ressaltou. 

Perguntas e considerações finais aprofundam a realidade dos Municípios 

Na rodada de perguntas, o palestrante foi questionado sobre a relação entre auditoria interna, controle interno e compliance. Ele explicou que o compliance tem origem na lógica regulatória e ganhou força com a Lei Anticorrupção, enquanto a auditoria interna tem como essência a avaliação independente e sistemática de processos. “Já foi provado que, se não houver alguém fazendo uma avaliação independente e sistemática, a coisa degringola”, observou. 

Em outra pergunta, sobre como selecionar de maneira eficiente os temas de auditoria em Municípios que ainda não possuem programa de gestão de riscos, Marcus Vinicius afirmou que não é preciso esperar uma estrutura formal: o ponto de partida deve ser o que é mais relevante e pulsante para a gestão. “O que é o problema senão o risco que se materializa? E o que é a forma como o gestor lida com o problema senão a salvaguarda?”, ponderou.  

Para os Municípios de pequeno porte, com poucos servidores e acúmulo de funções, recomendou priorizar o que é importante, usar a tecnologia da informação e demonstrar ao gestor o valor do trabalho. “A governança não é um luxo; ela deriva da natureza das coisas. E a auditoria interna é peça fundamental da governança”, concluiu. O palestrante também compartilhou o artigo Auditorias internas enxutas: desafios e estratégias, que será apresentado em congresso latino-americano no Rio de Janeiro. 

Nas considerações finais, o Procurador-Geral Gabriel Guy Léger sugeriu como focos prioritários de auditoria municipal os contratos terceirizados, especialmente na saúde, a folha de pessoal e os precatórios, e defendeu que os trabalhos sigam um ciclo completo: identificar o problema, planejar, informar o gestor, executar de forma dialógica, divulgar o relatório e monitorar seus resultados. Léger também destacou a importância do diálogo com os conselhos municipais, “parceiros na fiscalização sob o viés do controle social”, e reforçou a distinção de atribuições: “Não é atribuição da controladoria apagar incêndio”. Explicou, ainda, que o Painel de Maturidade do Controle Interno do MPC-PR analisa as quatro macrofunções do controle — controladoria, ouvidoria, auditoria e corregedoria — e convidou os Municípios a atualizarem suas respostas em 2026, utilizando o Painel como ferramenta de diálogo com os gestores. 

O auditor da HU Brasil, Edson de Menezes Fernandes, que acompanhou o encontro, contribuiu ao ressaltar que a transição para uma auditoria colaborativa não significa assumir o papel do gestor: “Não é papel da auditoria assumir o risco, porque, se tivermos que tomar decisão, estaremos realizando atividade de gestão”. 

Encerrando, a Diretora-Geral Barbara Krysttal destacou que a auditoria passou de uma atuação predominantemente reativa para uma atuação preventiva e concomitante. “Quanto mais preventivo você for, mais o gestor vai confiar em você, porque você está agindo antes de ele errar”, afirmou. Ela lembrou que o encontro foi a aula introdutória do tema e que as próximas etapas da trilha abordarão papéis de trabalho e propostas de auditoria. “A auditoria é muito colaborativa se for bem feita. Como eu mitigo o risco e faço a máquina continuar andando? Essa é a mudança do auditor”, concluiu. 

Próximos encontros 

O próximo encontro da trilha de capacitações está marcado para o dia 6 de novembro, que irá tratar sobre “O Ciclo da Integridade: Diagnóstico, Gestão de Riscos e Entrega de Resultados à Sociedade”, a ser ministrado por Marcelo Monteiro, Secretário Executivo de Planejamento e Gestão Interna da Controladoria e Ouvidoria Geral do Estado do Ceará (CGE/CE), sendo Doutor em Administração de Empresas (Unifor), Mestre em Economia (UFC), Graduado em Direito (UFC) e Administração (Estácio).

Além deste encontro, na semana seguinte, seguimos com a trilha de capacitação, agendada para o dia 13 de novembro, com o tema “Medir para gerir: indicadores padronizados como ferramenta de gestão e controle municipal”, conduzido por Denis Carvalho, que abordará sobre as normas da ABNT e da ISO aplicadas à gestão municipal. 

As capacitações integram a etapa formativa do projeto Diagnóstico de Maturidade das Estruturas de Controle Interno, que busca apoiar os municípios paranaenses no fortalecimento de suas estruturas de governança, transparência e controle interno. 

 *** Para quem tiver interesse na apresentação e artigo mencionado pelo palestrante, acesse os links abaixo: ***

Apresentação “Os desafios da Auditoria Interna Governamental no Brasil do Século XXI” – clique aqui. 

Artigo “Auditorias Internas enxutas: desafios e estratégias para a otimização de estruturas minimalistas”, escrito por Marcus Vinicius de Azevedo Braga – clique aqui.